De prisão negra em que estavas a porta abriu-se p’ra rua.
Já sem algemas escravas, igual à cor que sonhavas, vais
vestida de estar nua.
Liberdade, liberdade,
tem cuidado que te matam.
Na rua passas cantando, e o povo canta contigo.
Por onde tu vais passando mais gente se vai juntando, porque
o povo é teu amigo.
Liberdade, liberdade,
tem cuidado que te matam.
Entre o povo que te aclama, contente de poder ver-te, há
gente que por ti chama para arrastar-te na lama
em que outros irão prender-te.
Liberdade, liberdade,
tem cuidado que te matam.
Muitos correndo apressados querem ter-te só p’ra si;
e gritam tão de esganados só por tachos cobiçados, e não por
amor de ti.
Liberdade, liberdade, tem cuidado que matam.
Na sombra dos seus salões de mandar em companhias, poderosos
figurões
afiam já os facões
com que matar alegrias.
Liberdade, liberdade,
tem cuidado que te matam.
E além do mar oceano o maligno grão poder
já se apresta p’ra teu dano, todo violência e engano, para
deitar-te a perder.
Liberdade, liberdade,
tem cuidado que te matam.
Com desordens, falsidade economia desfeita;
com calculada maldade, promessas de felicidade e a miséria
mais estreita.
Liberdade, liberdade,
tem cuidado que te matam.
Que muito povo se assuste, julgando que és tu culpada, eis o
terrível embuste
por qualquer preço que custe com que te armam a cilada.
Liberdade, liberdade,
tem cuidado que te matam.
Tens de saber que o inimigo quer matar-te à falsa-fé.
Ah tem cuidado contigo; quem te respeita é um amigo quem não
respeita não é.
Liberdade, liberdade,
tem cuidado que te matam.
in Poesia 2 (1974, poema póstumo)












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